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quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Las Ideas Rotas

"Abraços Partidos" é o tipo de filme para aqueles que eventualmente gostam de uma boa história de amor cheia de reviravoltas, tensões, pitadas de humor negro e cenas de amor passional vistas através de longos flashbacks e que, tendo em vista a situação daquele que conta o que se passou, sabemos que o final não será lá tão otimista.
É um filme que agrada quem pouco conhece Almodóvar e desagrada quem muito conhece e gosta do diretor porque aqui ele apresenta todas suas características típicas (assuntos graves tratados de forma banal, traições, sexo, longas cenas com belas paisagens e bela trilha sonora) só que de forma atenuada, fazendo sua obra parecer mais um filme sobre duas pessoas que se amaram intensamente, o que é verdade, mas também ultrapassa tal fronteira.
Quando terminei de ver o filme nessa tarde, encontrei um amigo formado em Artes que também escapou da rotina infernal e resolveu pegar um cineminha cult de quarta-feira. Ao trocarmos nossas opiniões, ele deixou bem claro que achou o filme "leve". Eu que não podia ficar quieto, respondi erroneamente que os filmes do Almodóvar vinham ficando mais "leves" com o tempo. Não que meu amigo não tenha gostado, mas depois de me dar outros exemplos de filmes do Almodóvar melhores e mais "pesados", percebi que eu precisava revisitar a locadora para ver e rever alguns que ou assisti por cima, leia-se adolescência, ou simplesmente não assisti.
Mesmo assim, na volta pra casa no ônibus lotado e envolto de um calor infernal, fui colhendo o pouco que sei sobre o diretor e lembrando dos filmes que já vi e que em geral apreciei. Cheguei à conclusão de que me afeiçoei ao "Abraços Partidos" justamente porque o filme vai além dos adjetivos "leve" ou "pesado" e recheado de referências diretas e/ou indiretas, nos apresenta uma verdadeira homenagem ao bom cinema e sua constante busca pela renovação.
É um filme sobre crise, de fato, mas uma crise que visa a renovação e mudança, coisa que, meu amigo que me perdoe, a arte em geral precisa nesses nossos dias tão sombrios e comercializantes.

Fica a dica!

Um abraço partido a todos e até o próximo filme!

PS: Adivinhem quem é o amigo formado em Artes?

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Tarantino is a basterd

Fui cheio de expectativa assistir ao "Bastardos Inglórios", mas sempre levanto uma sobrancelha quando de um lado o público diz que adorou o filme e a crítica também. Geralmente um tem seus motivos e o outro outros, mas lá fui eu. Qual foi a minha surpresa quando dei de cara com um típico filme do Tarantino só que ambientado durante a 2ª Guerra Mundial - cenas de ação e tiroteio rápidas precedidas de longos diálogos tensos que se pretendem profundos e por vezes existencialistas além da trilha sonora atemporal e a quebra de qualquer protocolo no mundo do cinema como rabiscar na tela os nomes de uma série de personagens históricas ou simplesmente personagens do filme.
Tudo isso faz de "Bastardos" um ótimo e típico filme do Tarantino e creio que se por um lado a crítica gostou dos diálogos cabeça e de certas coisas inovadoras, o público se deleciou com as cenas de ação e massacre. Não que o público não goste do diálogo, mas ao sair do cinema algumas pessoas murmuravam "É muito bom, mas achei que teria mais ação..." É claro que achou! Ao ver o trailer de "Bastardos" a gente espera um filme de um esquadrão secreto baseado na França ocupada pelos nazistas que mata e tortura os soldados da SS sem dó nem frescura. Não estamos cansados de ver os soldados americanos bonzinhos encarando os maléficos alemães?
Ora, não me surpreenda que muita gente foi ao cinema esperando a mesma coisa que vimos em "Tropa de Elite" que causou todo aquele frisson na classe média ao ver na tela a vingança feita pelo Capitão Nascimento aos bandidos do morro que financiam junto aos viciados e políticos corruptos a morte de tantas criancinhas inocentes, afinal quem não quer ver os nazistas pagando da pior forma possível pelo que eles fizeram?
O problema é que ao longo do filme, os bastardos do títulos acabam se passando por meros coadjuvantes dentro de uma série de acontecimentos que envolvem um tema que já nos tinha dado um prato cheio -e frio- com os dois volumes de Kill Bill: A vingança. E é ai que o filme fica interessante pois a vingança é o tempero que permite todas as maluquices de Tarantino em seus filmes pois ela, planejada ou espontânea, é algo que transcende os limites do racional e nos leva a crer que tudo que fazemos é movido por essas paixões que desde muito tempo tentamos explicar, mas que no fundo não conseguimos e ficamos chocados quando nos pegamos com um leve sorriso no rosto ao ver uma cena de puro sadismo na tela.
No universo de Tarantino são todos bastardos, inclusive o espectador.



segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Up - Altas Aventuras ou Como a Pixar está amadurecendo

Dia desses fui ao cinema assistir o novo filme da Disney/Pixar Up - Altas Aventuras.
Creio que todo mundo já conhece a sinopse: um velhinho viúvo (Carl, dublado por Chico Anysio na versão brasileira) resolve pendurar sua casa a um monte de balões e partir numa viagem rumo à América do Sul onde existe um paraíso das cachoeiras, lugar que a falecida mulher sempre quis conhecer. O que ele não esperava é que um jovem escoteiro (Russel) o acompanhasse por acidente nessa aventura fantástica.
http://uouwww.net/imagens/UpAltasAventuras2009_103DA/UpAltasAventuras2009uouwww_thumb.jpgConfesso que esse foi talvez o melhor filme da Pixar que já vi e, se não for o melhor, está empatado com Wall-E. Lembro da vez que aluguei Toy Story e achei um máximo, mas tenho certeza que se pegar o primeiro hoje, não vou achar tanta graça. Talvez eu ria de algumas piadinhas que não tinha entendido à época, mas nada surpreendente. Acontece que a Pixar, como nós todos, foi amadurecendo e aqueles filmes que no começo eram meros entretenimentos infantis dessa nova onda digital da Disney, que daria origens a outros produtos de outras produtoras como Shrek e A Era do Gelo, começaram a se transformar em verdadeiras obras de arte tanto estética quanto qualitativante.
Assistir à Wall-E, para quem gosta de cinema, é tomar um banho de referências aos filmes mudos do começo do Século XX, e justamente numa história onde o contexto é de um futuro em que o planeta está devastado e pelo jeito só sobrou um robozinho (Wall-E) que tem a função única de juntar o lixo, mas além disso o  robô desenvolve uma curiosidade pelos objetos estranhos que vai encontrando e acaba se envolvendo numa aventura espacial com EVA, uma robô ultra moderna que veio à Terra em busca de algum sinal de vida.
Contexto um tanto sinistro para um filme infantil, não?
Talvez os últimos filmes da Pixar vem carregando um clima de diagnóstico do mundo atual. Carros, Wall-E e UP são um crítica direta à nossa época, sendo o primeiro (e mais fraco) saudosita  e uma pesada e frágil ode à tradição, o segundo uma denúncia ambiental (ele quase entrou na lista dos cinco indicados a melhor filme  pela academia) e o último uma sutil alfinetada às relações "coisificadas" que travamos ultimamente.
Carros, por ser saudosista e "americanista" demais (o título entrega tudo) é um dos mais fracos, mas esses dois últimos fazem a gente pensar no ponto em que chegamos. Wall-E pode parecer apelativo no alerta, mas Up nos emociona, nos faz rir e nos adverte para o fato de que nossas verdadeiras conquistas estão nas relações que travamos com as pessoas e não naquelas que travamos com as coisas, dinheiro ou posses.
Up fala disso desde à casa de Carl cercada por investimentos imobiliários monstruosos e gananciosos que farão de tudo para tirá-lo de lá e mandá-lo a um asilo até o pai ausente de Russel que sequer faz uma ponta no filme, propositadamente, eu imagino, para não ficar aquele clima de pai arrependido no final.
É um filme sobre amizade (o curta anterior ao filme é imperdível) e sobre como às vezes esquecemos o quanto é bom ter alguém para desabafar, brincar ou simplesmente abraçar, mesmo que para isso precisemos abdicar de certas aventuras, mas que no final a gente compreende por que o saldo acabou sendo positvo.
Levem alguns lenços, cenas do comecinho e do final podem pegar de jeito aqueles que choram com qualquer beijo de novela e esqueçam essa história de 3D, apesar de os filmes estarem cada vez mais perfeitos, o conteúdo prendem mais nossa atenção que os detalhes perfeccionistas.

Um abraço e até o próximo filme!